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Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

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Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

Mensagem por Rayana_Wolfer em Qua 05 Out 2011, 5:57 pm

Postado em 2008, desenvolvido no dia 24 Agosto 2011 na Rainbow 09 Journal

Hoje (dia 24 de Agosto) o Google celebra o aniversário de Jorge Luís Borges. Trata-se um autor argentino de ficção, poeta, tradutor, um pensador muito influente. Escreveu vários contos, e a sua obra mais famosa é Ficciones (1944), uma compilação de várias pequenas narrativas de aura misteriosa, pelas questões que abordam.

Mas o que tem este autor que ver com Digimon Adventure?

Digimon Adventure e Jorge Luís Borges


Vamos regressar ao arco de Vandemon, mais precisamente, quando as crianças escolhidas recebem uma mensagem urgente de Gennai. O ancião explica que Vandemon tenciona invadir o Japão, no Mundo Real. O seu objectivo é encontrar e matar a 8ª Criança Escolhida.

Este é o episódio 27 de Digimon Adventure. Se bem se recordam, o castelo de Vandemon possui um enorme salão de pedra, com um Portal. No centro deste salão, está um altar de pedra com várias inscrições maçónicas. Para abrir o portal, Vandemon tem 9 cartas na sua mão. Pousando as cartas no altar, apenas UMA COMBINAÇÃO permite aceder ao Mundo Real. Qualquer erro fará o Portal abrir-se para outra dimensão qualquer.

Vandemon não tem problemas com as cartas, porque ele sabe exactamente o que fazer: ele abre os braços e exclama Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, as cartas organizam-se por si só em cima do altar, e o portal abre-se imediatamente para a dimensão do Mundo Real.

Em japonês isto soa algo como "turen ucubar orubisu terutius". É preciso estar familiarizado com o japonês, para perceber que a língua não possui o fonema do "L" (la, li, lu, le, lo), e por isso trocam para o fonema "R" (ra, ri, ru, re, ro). Este "r" lê-se como o R da palavra "Arara".

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (1940) é uma das ficções mais intrigantes de Jorge Luís Borges, pouco recomendado como 1ª leitura para quem nunca estudou o autor. Mas como sempre, está recheado de questões intrigantes de carácter filosófico e hipertextual. A história narra a descoberta de uma enciclopédia chamada "Encyclopaedia Britannica" que parece ter mais palavras do que as suas edições posteriores. Descobre-se que esta enciclopédia terá sido forjada por uma sociedade secreta ao longo de várias gerações. O objectivo deste grupo de intelectuais terá sido: inventar/descobrir (as duas palavras são sinónimos em latim) todo um planeta imaginário, com as suas próprias línguas, suas ciências, suas doutrinas, sua política e suas culturas. Este é o planeta imaginário de Tlön, que passa a dominar o interesse do mundo real. A partir do instante em que a enciclopédia foi descoberta, Tlön e os seus idiomas sobrepõem-se ao planeta que já existe. O francês e ao inglês dão lugar a novos idiomas, assim como as culturas são progressivamente modificadas para as de Tlön.

Qualquer semelhança entre Tlön e a Digital World NÃO É mera coincidência. Mas o génio da ligação entre Digimon e Luis Borges não pode ser apreciado apenas com isto. Muitos estudiosos consideram que este autor foi um visionário, porque ele previu o algoritmo da Era Digital, antes de sequer ter começado.

Para explicar Luís Borges, é impossível deixar de mencionar o conto policial "O jardim dos caminhos que se bifurcam" (1941), que certamente vos fará compreender. Este conto acontece durante a Primeira Guerra Mundial, do ponto de vista do protagonista Yu Tsun, que comete um assassinato para levar a cabo uma missão de espionagem. A sua próxima vítima é Stephen Albert, um indivíduo que foi encarregado de decifrar um enigma do romance escrito por Ts’ui Pen (que é o antepassado do protagonista). Antes de morrer assassinado, Ts’ui Pen terá abandonado uma vida farta e próspera, para dedicar o resto dos seus dias a forjar este seu livro e um labirinto. Antes de morrer, Stephen decifrou que o livro e o labirinto são, na verdade, o mesmo objecto. A chave para a descoberta estava num fragmento de uma carta deixada por Ts’ui Pen, onde estava escrito: "Deixo aos vários futuros (não a todos) o meu jardim dos caminhos que se bifurcam" (Borges, 1941 , p.104). Stephen descobre que este jardim é, de facto, o romance. Mas como pode ser isto? O segredo está na forma como o romance foi escrito: a forma de contar história não é linear, escondendo um "invisível labirinto de tempo" (Borges, 1941, p.103). O labirinto oculta em si mesmo múltiplos tempos; mas cuidado: não se trata apenas um único tempo uniforme, homogéneo, abstracto, mas sim de "infinitas séries de tempos, uma rede crescente e vertiginosa de tempos divergentes, convergentes e paralelos. Essa trama de tempos que se aproximam, se bifurcam, se cortam ou que se ignoram, abrange todas as possibilidades." ( Borges, 1941, p.107-108).

Em essência, este conto é também uma abordagem à possibilidade de mundos paralelos. O protagonista Yu Tsun imagina um labirinto de labirintos. Ele pensa nas várias possibilidades de mundos diferentes que se estendem à sua frente, quando ele faz "esta" ou "aquela" escolhas. Isto leva ao conceito de uma árvores de escolhas, muito semelhante à experiência da pessoa que surfa na internet. Daqui, nasce a noção de hiperlinks (várias realidades que acontecem simultaneamente), realidades que se multiplicam no campo das possibilidades, e que por isso criam mundos onde cada potencial acontecimento é real ou está a acontecer neste exacto momento. Falamos de mundos paralelos, onde várias versões da mesma pessoa existem, em mundos diferentes. A pessoa escolhe por onde quer navegar, criando uma nova dimensão, e explorando infinitamente a base de dados que está depositada no mundo (isto é o algoritmo da Base de Dados).

Ou seja, a lógica da Base de Dados (amontoado de informações, que cada um lê na ordem que escolher) seria o mundo imaginário de Tlön, que aos poucos vence o mundo velho e obsoleto da lógica Narrativa (com suas linhas de princípio/meio/fim). Este mundo velho corresponde ao mundo das grandes narrativas da humanidade (com seus mitos, seus evangelhos, suas profecias: tudo são narrações, "No princípio" até ao "Apocalipse", a caminho de uma "Salvação"). Ou seja, a lógica da "única linha possível de acontecimentos" é colocada aqui contra o algoritmo das várias possibilidades de mundo.

Basta mencionar isto para intuírem a estreita relação que os temas desenvolvidos por Luis Borges têm com com Digimon, sendo um anime que fala de mundos paralelos, o digital, e o sistema da base de dados, com realidades simultâneas e alternativas (como o facto de haver dois universos com dois "Taichis": V-Tamer e Adventure, ou ainda a existência de três "Taikis": aquele do anime de Xros Wars, e ainda os dois Taikis que aparecem no manga).
Digimon também é um anime que fala muito das escolhas de cada indivíduo, por oposição à lógica da profecia onde tudo parece linear e pré-determinado. Com efeito, toda esta conversa da profecia perde sentido no episódio 54, quando Taichi, Sora, Yamato e todas as crianças mandam a profecia às urtigas e fazem evoluir os seus Digimons contra todas as probabilidades e chances. As crianças escolhidas conseguem vencer Apocalymon, com a sua prepotente e arrogante decisão sobre o futuro do mundo, graças às suas escolhas pessoais.

Por fim, é preciso acrescentar que o conto d"O Jardim de Caminhos que se Bifurcam" é um livro infinito, por si mesmo. Luis Borge rompe o espaço limitado da página impressa, porque existe na própria história, noutro tempo, que só faz sentido no final e que aparece como um "metatempo": este é o tempo circular, que retoma de onde partiu. Stephen comenta com Yu que o romance, para ser infinito, precisava de ser necessariamente circular. Assim como Ts’ui Pen foi assassinado por um desconhecido, Yu Tsun torna-se o assassino ao matar Stephen Albert, o decifrador do enigma. O círculo reencontra, então, o seu início.

O anime de Digimon Adventure é igual. Para o mundo digital (e seu sistema de base de dados infinito) continuar, ele precisa de ser necessariamente circular. Assim como outras Crianças Escolhidas enfrentaram Apocalymon no passado, Taichi, Sora e as Crianças Escolhidas do presente estão a enfrentar Apocalymon.
Nunca se perguntaram por que motivo nunca se narrou a história das "primeiras crianças escolhidas"? A resposta é simples: estão a olhar para elas. Quem disse que eram as "primeiras"? Gennai só comentou que houve "outras crianças escolhidas" antes de Taichi e companhia. Não se falou nada sobre "o início". Bem pelo contrário, tudo aponta para um ciclo sem fim...



O Tao é como o espaço vazio dentro de um vaso;
Mas, por mais que o enchamos, nunca ficará cheio.
É imensurável, como se fosse o Antepassado de todas as coisas.

- Tao Te Ching

Fontes:
1. Jorge Luis Borges, Ficciones, “El jardin de senderos que se bifurcan”, 1941
2. Jorge Luis Borges: Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, 1940
3. Análise do texto “O jardim dos caminhos que se bifurcam”
4. Apontamentos das minhas aulas de Introdução aos Novos Média, leccionadas pelo professor Osvaldo Silvestre, na FLUC
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Re: Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

Mensagem por Edu em Sex 07 Out 2011, 6:01 pm

Belo post, Rayana. Very Happy

A ligação e analogia é muito bem feita. Se for parar pra pensar, pode-se tornar mais amplo ainda a coisa, porque essa história de ''ciclo'' se vê em outras temporadas também, tipo em Frontier, onde os Espíritos Lendários lá selaram Lucemon e depois os escolhidos, usando as evoluções a partir dos espíritos lendários lutam com ele novamente. É como se fosse uma coisa circular mesmo, e como você disse, é por isso que não é muito relevante ficar contando fatos passados.

E aquilo de labirintos, mundos paralelos e tal, em 02 mesmo acho que o Mar de Dragomon - tenho de ler essa depois também XD - pode ser citado como um exemplo, apesar de aparentemente ficar no mesmo Digital World que as crianças conhecem, embora em uma dimensão separa, ou algo assim.

Enfim, eu não conhecia Jorge Luís Borges, mas o tópico foi bem interessante. Very Happy
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Re: Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

Mensagem por Rayana_Wolfer em Sex 14 Out 2011, 9:07 pm

Thank you Edu!
Até 2008, também não conhecia o autor; e se não fosse pelas aulas da faculdade eu acho que seria difícil descobrir um dia. o.o Parece até estupido dizê-lo, mas não tive mérito nenhum. Eu só assistia às aulas dos meus professores e chegava a casa para assistir digimon. Aí, ficava de queixo caído enquanto a lógica se montava na minha cabeça. Kind of creepy... o.õ
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Re: Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

Mensagem por Lawliet em Sab 15 Out 2011, 2:11 pm

Nossa, analise impressionante! Fiquei pensando agora em fuçar alguns episódios de Adventure até Tamers para ver se acho algo assim.
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Re: Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

Mensagem por matheusmreis em Dom 01 Jan 2012, 5:21 am

Eu sabia que a história de Digimon não se resumia a uma simples série, mas com essa riqueza de detalhes, você me deixou muito impressionado, até assustado pra falar verdade.

Depois de ter lido isso não posso deixar de ler os livros de Jorge Luís Borges!

Sem dúvidas, isso é muito fascinante!!

study

Aproveitando, estou lendo todos os artigos escritos o seu livejournal. Parabéns pela iniciativa e genialidade!
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Re: Digimon Adventure e Jorge Luís Borges

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